Manifesto Pela Cultura Livre

November 23rd, 2005

Category: Software Livre e Open Source

“Voce pode dizer que sou um sonhador. Mas nao sou o unico.”
John Lennon

Muito se tem falado sobre o conhecimento, afinal vivemos a era da informacão. Mais do que o acúmulo de bens materiais, o acúmulo de informacões tem tido uma valorizacão que se traduz em última instância em vantagens financeiras. Mas defensores da Cultura Livre, incluindo aí o subconjunto de militantes do Software Livre, proclamam:

O conhecimento tem mais valor quando compartilhado.

Será que isso é verdade?
Para analisar uma afirmativa dessas é necessário completá-la com mais detalhes. Por exemplo, o “ter mais valor” é uma característica relativa. Dependendo das necessidades de cada um a valorizacão medida de um item pode ser diferente entre os individuos. Dependendo dos princípios de religião, ética, ou filosofia de cada um algo pode ser de grande importância ou não ter valor algum. Dependendo de aspectos culturais da sociedade em que uma pessoa foi criada, ela pode perserguir com afinco a posse de um objeto, ou simplesmente ignorar a chance de sua apropriacão.

Apresentei o relativismo da valorizacão de algo sob o ponto de vista individualista. Nós da cultura capitalista estamos treinados para pensar assim, o indivíduo em primeiro plano. O interesse próprio é uma das características mais apoiadas pelo capitalismo.

Mas vamos pensar sob uma visão mais abrangente. A humanidade se comporta como uma entidade única, um organismo cujos movimentos derivam, mas não são previstos, dos pequenos movimentos de seus pequenos componentes. É nela que devemos pensar quando definimos nosso modo de agir. A evolucão da humanidade é que trará benefícios não apenas para você, mas para todas as geracões seguintes da sua família. Sendo a humanidade vista como entidade única, eliminamos o problema anterior do relativismo. Pensando ou tentando pensar como humanidade, teoricamente estaremos modelando o mesmo referencial e não pontos de vista próprios.

Portanto, vou tomar a liberdade de completar a afirmativa citada com o que entendo esteja implícito no discurso de um ativista pró-cultura livre.

O conhecimento tem mais valor para a humanidade quando ele é compartilhado.

Definido o referencial, devemos partir para a criacão de nossa métrica para medir o que é valor. Pois quando deixamos de pensar de forma individualista, o valor econômico deixa de ser fim para se tornar um meio. Imagine que nós somos células de um corpo gigante consciente. Esse corpo gigante é o único ser habitante em um planeta. Que diferenca faria para ele ter muito ou pouco dinheiro? Nenhuma, dinheiro é uma proteína que faz suas pequenas células sobreviverem, ou seja, é um meio de sobrevivência para este grande ser, mas não o fim. Esta proteína pode ser substituída em parte por outra fonte energética.

O conhecimento é um complemento excelente para a proteína do dinheiro. Ele é capaz de gerar bem-estar sem os efeitos colaterais da substância econômica. Assim como o dinheiro, entretanto, não basta algumas poucas células o possuírem. Para o corpo inteiro perceber algum benefício, ele tem que ser distribuído o máximo possível por todas as células do grande ser. Diferente do dinheiro, as células que possuem conhecimento não se tornam cancerígenas. Quando duas delas se tocam cada uma recebe uma cópia do vizinho. As proteínas de dinheiro, por outro lado, são transferidas ou simplesmente roubadas do seu parceiro celular.

No meio do parágrafo anterior parece que apareceu a nossa métrica, o bem-estar. Entretanto, o bem-estar é um estado, não uma acão que possa ser definida por um verbo. Um estado serve de base para alguma atividade. Você toma vitaminas para tentar garantir um estado saudável para que você possa trabalhar, se divertir e… evoluir. Você faz uma universidade, estuda Inglês e acompanha revistas especializadas para garantir que você se mantenha profissionalmente atualizado no mercado e sua carreira possa… evoluir.

O bem-estar que o conhecimento coletivo das células do grande ser garante é um estado que permite e contribui para a humanidade evoluir. Portanto, a percepcão de valor que o conhecimento coletivo pode dar para a humanidade é o quanto ele é capaz de colaborar para que esta evolua de forma mais eficiente.

Completando a afirmativa com mais detalhes, o que penso que os ativistas da cultura e conhecimento livre querem dizer detalhadamente é:

O conhecimento compartilhado contribui de forma mais significativa para a evolucão humana do que o conhecimento individualmente isolado.

Mas por que se preocupar com a humanidade? A vida é muito curta, não seria mais proveitoso para o indivíduo buscar unicamente seu bem-estar e no máximo dos seus parentes diretos? Não terá a humanidade, de forma geral, um comportamento constante independente das acões individuais, dado a curta longevidade de cada ser humano comparada a longevidade da espécie?

Essas perguntas e outras da mesma categoria fazem com que muitos de nós ignorem o todo e trabalhem apenas em benefício próprio. De fato, pessoas que pensam e agem dessa forma sempre existirão independentemente do quão tenham sucesso os componentes de movimentos como o de cultura e conhecimento livres. Não podemos dizer que estão erradas, apenas que consideram um universo mais restrito na sua visão do mundo.

Um formigueiro pode existir por mais de dez anos. O comportamento observado de um formigueiro muda com o tempo. Por exemplo, formigas de formigueiros jovens, que saem a procura de áreas que contenham alimentos e topam com formigas de outra colônia costumam batalhar por aquela área. Por outro lado, formigas de formigueiros mais maduros evitam essas batalhas e preferem abandonar o local e sair a procura de outro. Isso apesar do fato de as formigas componentes da colônia viverem no máximo cerca de um ano. O comportamento do todo sofre seu próprio padrão de transformacão através das mudancas graduais de comportamento de seus componentes. Cada formiga pode não ter consciência disso, mas suas atitudes influenciam as demais e algumas vezes geram um lento efeito em cadeia que pode mudar o destino de toda a colônia. De alguma forma, a experiência das geracões anteriores é transferida para as mais novas. O conhecimento é transmitido, e as formigas provavelmente não o sonegam às suas companheiras.

Voltando a analogia das células, podemos encontrar também entre elas seres que são simplesmente parasitas. Vivem para si mesmos e não geram combustível para o funcionamento do ser que habitam, sua existência é apenas um apêndice, um resquício da selecão natural, ou são vírus que geram malefícios ao ser que atacam.

Como encontrar motivacão e bons argumentos para convencer das vantagens do conhecimento coletivo a quem prefere sonegar conhecimento e colaboracão visando benefícios próprios? Essa é uma questão difícil. Penso que o primeiro passo é o esclarecimento, fazer com ele leia e pense sobre o assunto. A partir do momento em que sai da ignorância, o caminho passa a ser questão de escolha. Um argumento possível é simplesmente perguntar se a pessoa deseja ser apenas um parasita da humanidade. É um argumento fraco para mudar os pensamentos de alguém. É como tentar convencer um ateísta de que ele deve acreditar em Deus ou ser transferido para o inferno após a morte. Na realidade, é mais difícil, pois não há a perspectiva de um castigo eterno como na comparacão do fanático religioso. Apesar de a maioria dos religiosos não ser fanática, a palavra foi usada intencionalmente para destacar que o fanatismo é prejudicial para qualquer causa. Não há possibilidade, e nem devemos querer, que o mundo todo aja absolutamente da mesma maneira neste ou em qualquer outro contexto. O importante é criar predisposicão para a colaboracão mútua na geracão de conhecimento e cultura. Se todos agirem assim, pelo menos na MAIOR PARTE do tempo, teremos sucesso e o futuro agradece.

Podemos partir para a exemplificacão e falar sobre a evolucão científica e tecnológica. O que seria hoje, por exemplo, da medicina sem a troca de informacões entre pesquisadores? Entretanto, cada vez mais a indústria farmacêutica luta para restringir o acesso e uso de avancos e descobertas na área. Como se essas descobertas fossem totalmente originais e não baseadas em uma enorme base de conhecimento acumulada desde os tempos de Rudolf Virchow. E imagine como estaríamos tecnologicamente avancados se não houvesse a mesma pressão restritiva no setor de pesquisa e desenvolvimento tecnológicos? Apesar de evidentes, os benefícios da liberdade de acesso e uso de conhecimento são ignorados e a humanidade luta por modelos egoístas de protecão de informacão. Não é a humanidade que luta, e sim os homens, e como tais não pensam com perspectiva coletiva. Realmente não podemos esperar que pensemos, em nossa maioria, desta forma. A humanidade é um organismo que, tal como o formigueiro, emerge e transforma o todo em mais do que a soma das partes (ver “Emergence: The Connected Lives of Ants, Brains, Cities, and Software”, de Steven Johnson). É natural que a consciência dos homens sobre a humanidade seja limitada. Está além de nossa capacidade entendê-la em sua totalidade, do contrário seria fácil prever seu futuro. Mesmo se pudéssemos, seria inútil pois o estaríamos mudando no momento em que o deduzíssemos.

Destacar o assunto a partir do ponto de vista de situacões reais e simulacões através de exemplos pode ajudar, mas ainda não é suficiente. Referenciando Richard Dawkins em “O Gene Egoísta”, exemplos específicos não servem como evidências suficientes para uma generalizacão importante.

Usando mais ainda o conhecimento que Richard Dawkins compartilhou comigo através do seu livro, podemos criar um modelo de interacao entre individuos com comportamentos antagônicos e verificar quais suas chances de sobrevivência. Richard Dawkins lancou mão amplamente deste método para ilustrar sua teoria de selecão natural baseada em unidades genéticas. Vou me atrever a transportar esse modelo para a avaliacão de vantagens e desvantagens de ser um disseminador de conhecimento.

Imagine um mundo feito de apenas dois tipos de pessoas. Suponha pessoas que não compartilham seus conhecimentos com ninguém e vamos chamar este grupo de parasitas. O outro grupo, chamemos de libertários, compartilham seus conhecimentos sem qualquer restricão. Um parasita, quando encontra com um libertário, absorve seus conhecimentos mas não fornece nada. O libertário quando encontra outro libertário, recebe e cede conhecimento.

Vamos atribuir créditos e débitos para cada atividade executada por esses seres, de modo que possamos medir o seu sucesso ou fracasso na convivência em sociedade. Podemos supôr que isso é uma medida de bem-estar. Os valores absolutos não importam, mas sim o resultado médio de suas interacões. Digamos que quem aprende algo de outro indivíduo, ganha um crédito de 5 pontos e quem ensina algo gasta 1 ponto nesta atividade, ou seja, recebe uma penalidade de -1 devido ao tempo e esforco despendidos na tarefa. Quando um parasita encontra com outro parasita nenhum dos dois ensina ou aprende nada, portanto, essa interacão gera 0 pontos para cada um. Se um parasita interage com um libertário, o parasita ganha 5 pontos e o libertário perde 1 por ensinar a ele tudo que sabe. O encontro de um libertário com outro libertário, resulta em 5 pontos ganhos e 1 perdido, dando 4 pontos para cada um.

Suponha que inicialmente 50% da populacão seja composta de parasitas e a outra metade de libertários. Em média os parasitas ganharão 2,5 pontos por interacão, dado que estatisticamente cada um colidirá, em determinado intervalo de tempo, com igual número de parasitas e libertários. Já os libertários terão a média de 1,5 ponto por interacão, pois terão créditos de 4 pontos e débitos de 1 ponto na proporcão de 50% cada um.

Os parasitas claramente levam vantagem nesse mundo. Conforme os libertários vão se extinguindo (na verdade trocando de postura) a média dos parasitas tenderá a zero, pois cada vez mais encontrarão com outros parasitas e cada vez menos com libertários. Pelo mesmo motivo, a média dos libertários tenderá a -1. De qualquer forma, o destino dos libertários é a extincão total.

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| | Parasitas | Libertários |
|=========================================|
| Parasitas | 0 x 0 | 5 x -1 |
|-----------------------------------------|
| Libertários | -1 x 5 | 4 x 4 |
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Média do Parasita : 2,5 pontos (50% populacão) —> tende a 0 conforme aproxima-se de 100% da populacão
Média do Libertário: 1,5 pontos (50% populacão) —> tende a -1 conforme aproxima-se de 0% da populacão

Mas suponha agora que alguns libertários isoladamente passam a atuar de modo ligeiramente diferente e nasce um novo tipo de indivíduo. Os colaboradores, como vamos chamá-los, não são mais tão altruístas quanto os libertários mas têm predisposicão de trabalhar em equipe. Eles só fornecem conhecimento a quem também lhes der sabedoria em troca. É claro que poderia haver um embate em quem iria ceder primeiro, mas isso é um detalhe que pode ser abstraído aqui. Eles podem se lembrar, por exemplo, de quem é confiável da época em que eram libertários, ou em uma fase transitória ainda atuar certas vezes como libertários e ceder primeiro.

Quando um colaborador encontra um libertário cada um deles ganha 4 pontos, da mesma forma que quando encontra outro colaborador. Portanto, os colaboradores e libertários permenecem em equilíbrio sem ameacar a existência um do outro.

Suponha, então, que os libertários já estão praticamente extintos a ponto de serem desprezíveis nas estatísticas. Podemos fazer isso para simplificar o raciocínio sem prejuízo da conclusão final.

Se a grande maioria de indivíduos é parasita, a sua média está tendendo para zero. Um colaborador que encontra um parasita resulta em um placar de zero a zero, pois nenhum dos dois recebe ou dá informacão. Mas quando um colaborador encontra outro, cada um recebe 4 pontos. Então, enquanto os parasitas não encontram mais ninguém para lhe dar crédito, os colaboradores vagarosamente vão aumentando sua média nas raras vezes que encontram outro colaborador.

Alguns parasitas, vendo isso, resolvem ser colaboradores também e assim a populacão deste tipo vai gradualmente aumentando. Quando se chegar a uma proporcão aproximada de 50% para cada um, os colaboradores terão uma média de 2 pontos por interacão enquanto os parasitas estarão praticamente em zero. Conforme aumenta a populacão de colaboradores a sua média tende a 4 e os parasitas continuam sem nada. Se ainda houver alguns poucos libertários eles continuarão existindo mas não conseguirão salvar os parasitas nem tampouco converter colaboradores a se tornarem libertários. Desta vez o destino será cruel com os parasitas e quem é colaborador tem mais probabilidade de dominar o mundo.

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| | Colaboradores | Libertários |
|===============================================|
| Colaboradores | 4 x 4 | 4 x 4 |
|-----------------------------------------------|
| Libertários | 4 x 4 | 4 x 4 |
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Média do Libertário : 4 pontos —> constante independente da proporcão na populacão
Média do Colaborador : 4 pontos —> constante independente da proporcão na populacão

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| | Parasitas | Colaboradores |
|============================================|
| Parasitas | 0 x 0 | 0 x 0 |
|--------------------------------------------|
| Colaboradores | 0 x 0 | 4 x 4 |
============================================

Média do Parasita : 0 pontos (50% populacão) —> constante independente da proporcão na populacão
Média do Colaborador: 2 pontos (50% populacão) —> tende a 4 conforme aproxima-se de 100% da populacão

O tipo colaborador têm mais chance de sobreviver. É claro que podemos admitir que um indivíduo não é, de forma absoluta, de um tipo ou outro, mas pode às vezes se comportar como um libertário, um colaborador ou um parasita. Mas o melhor para ele é que, na maior parte do tempo, ele se comporte como um colaborador, pois suas chances de sobrevivência serão maiores. Se comportar como libertário em um mundo de colaboradores também é garantia de bem-estar.

De forma geral, o modelo desenhado aqui é real, apesar de simplista. Quando absorve algum conhecimento novo você está acumulando um benefício que pode colaborar para melhorar a sua qualidade de vida. A atividade de ensinar alguém custa para você recursos próprios como tempo e energia.

Chegamos a conclusão de que mesmo pensando de forma individualista, é mais vantajoso para um indivíduo compartilhar seu conhecimento. Encontramos um argumento forte o suficiente para convencer alguém a ter um comportamento colaborativo:

É MELHOR PARA ELE!


Helder Garcia

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