Como Ser o Vale do Silício

February 10th, 2008

Category: Especial Paul Graham

 

Continuando a série de traduções, este texto é uma tradução autorizada do texto How to Be Silicon Valley de autoria de Paul Graham, executada para publicação no site SouNerd.com.
Mais uma vez tenho que ressaltar que, embora eu não concorde 100% com as idéias dele, o ponto de vista é bastante interessante. E nesse ensaio especificamente eu concordo ainda mais com ele.

 

Original: Maio de 2006
Tradução: Maio de 2006

Texto original: How to Be Silicon Valley, autoria de Paul Graham.
Tradução por Börje Karlsson (tellarin at sounerd dot com).
Eventuais comentários entre colchetes são adições pelo tradutor, não existindo na versão original.

(Este ensaio é derivado de uma palestra na Xtech.) [Xtech 2006, uma conferência européia voltada para pessoas que trabalham com tecnologias Web e baseadas em padrões.]

Seria possível reproduzir o Vale do Silício em algum outro lugar, ou há algo único sobre ele?

Seria surpresa se não fosse difícil reproduzí-lo em outros países, pois não se conseguiu reproduzí-lo na maior parte dos EUA também. O que é necessário para fazer um Vale do Silício mesmo nos EUA?

O necessário são as pessoas certas. Se você pudesse fazer com que as dez mil pessoas certas se mudassem do Vale do Silício para Buffalo, Buffalo se tornaria o Vale do Silício. [1]

Esta é uma diferença marcante do passado. Até algumas décadas atrás, a geografia era o destino das cidades. Todas as grandes cidades se localizavam na beira de rios, pois as cidades faziam dinheiro através de troca/negócios e a água era o único meio econômico de transporte.

Hoje em dia você poderia fazer uma grande cidade em qualquer lugar se você conseguisse que as pessoas certas se mudassem para lá. Então a pergunta de como se criar um Vale do Silício se torna: quem são as pessoas certas e como se consegue que elas se mudem?

Dois Tipos

Eu [Paul] acredito que só se precisa de dois tipos de pessoas para criar um hub tecnológico: pessoas ricas e nerds. Estes são os reagentes na reação que produz empresas startup, pois são os únicos presentes quando startups são iniciadas. Todo mundo mais vai se mudar.

Observações suportam isto: dentro dos EUA, cidades se tornaram pólos de startups se, e somente se, elas tinham tanto pessoas ricas quanto nerds. Poucas startups “acontecem” em Miami, por exemplo, pois embora ela esteja cheia de pessoas ricas, tem poucos nerds. Miami não é o tipo de lugar que nerds gostam.

Enquanto Pittsburgh tem o problema oposto: abundância de nerds, mas sem pessoas ricas. Dizem que os melhores departamentos de Ciência da Computação dos EUA são MIT, Stanford, Berkeley e Carnegie-Mellon. O MIT rendeu a Rota 128 [Route 128, estrada que circunda a região ao redor de Boston e Cambridge e onde surgiram diversas empresas de alta tecnologia]. Stanford e Berkeley renderam o Vale do Silício. Mas e a Carnegie-Mellon? O registro pula esse ponto. Um pouco mais abaixo na lista, a Universidade de Washington rendeu uma comunidade de alta tecnologia em Seattle e a Universidade do Texas em Austin rendeu uma em Austin. Mas o que aconteceu em Pittsburgh? E em Ithaca, onde fica a Cornell, que também está numa posição alta na lista?

Eu [Paul] cresci em Pittsburgh e fui para a faculdade em Cornell, então posso responder sobre ambas. O clima é terrível, especialmente no inverno, a não há um “centro antigo” interessante para compensar por isso, como há em Boston. Pessoas ricas não querem viver em Pittsburgh ou em Ithaca. Então, embora existam muitos hackers que poderiam começar startups, não há ninguém para investir nelas.

Não Burocratas

As pessoas ricas são realmente necessárias? Não funcionaria se o governo investisse nos nerds? Não, não iria funcionar. Investidores em startups são um tipo diferente de pessoas ricas. Eles tendem a ter muita experiência própria em negócios envolvendo tecnologia. Isto (a) ajuda-os a escolher as startups certas e (b) significa que eles podem fornecer conselhos e conexões além de dinheiro. E o fato de que eles têm algo pessoal em jogo faz com que eles realmente prestem atenção.

Burocratas, pela sua própria natureza, são o tipo de pessoa exatamente oposto dos investidores em startups. A idéia de que eles fariam investimentos em startups é cômica. Seria como se matemáticos dirigissem a revista Vogue — ou talvez ainda mais corretamente, se os editores da Vogue dirigissem uma revista científica de matemática. [2]

Embora de fato a maioria das coisas que os burocratas façam, eles façam mal. Nós normalmente não percebemos pois eles só têm que competir com outros burocratas. Mas como investidores em startups eles teriam que competir com os profissionais que têm bem mais experiêcia e motivação.

Até mesmo empresas que têm grupos de VCs [Venture Capitalists] internos geralmente proíbem que eles tomem as suas próprias decisões de investimento. A maioria só tem permissão de investir em acordos em que um firma de VC privada respeitável esteja disposta a agir como investidor principal.

Não Prédios/Construções

Se você for ver o Vale do Silício, o que você verá serão construções. Mas são as pessoas que fazem o Vale do Silício, não os prédios e construções. Ocasionalmente eu leio sobre tentativas de montar “parques de tecnologia” em outros lugares, como se os ingredientes ativos do Vale do Silício fossem os escritórios e prédios. Um artigo sobre Sophia Antipolis [um parque tecnológico na França, formado em 1970] fazia alarde de que as empresas lá incluíam Cisco, Compaq, IBM, NCR e Nortel. Os franceses não percebem que essas não são startups?

Construir prédios de escritórios para empresas de tecnologia não vai te dar um Vale do Silício, pois o estágio chave na vida de uma startup acontece antes que elas queiram esse tipo de espaço. O estágio chave é quando são três caras operando a partir de um apartamento. Onde quer que a startup seja quando ela receber investimento, ela vai ficar. A qualidade que define o Vale do Silício não é que a Intel, a Apple ou o Google tem escritórios lá, mas sim que elas foram criadas lá.

Então, se você quer reproduzir o Vale do Silício, o que você tem que reproduzir são aqueles dois ou três fundadores sentados ao redor de uma mesa de cozinha decidindo começar uma empresa. E para reproduzir isso você precisa daquelas pessoas.

Universidades

O interessante é que tudo que se precisa são as pessoas. Se você pudesse atrair uma massa crítica de nerds e investidores para morar em algum lugar, você poderia reproduzir o Vale do Silício. E ambos os grupos são altamente móveis. Ele irão para onde a vida é boa. Então o que torna um lugar bom para eles?

O que os nerds gostam é de outros nerds. Pessoas espertas/inteligentes irão para onde quer que outras pessoas inteligentes estejam. E, em especial, para boas universidades. Em teoria poderiam haver outras maneiras de atraí-los, mas até agora as universidades têm sido indispensáveis. Nos EUA, não há hubs de tecnologia sem universidades de primeira linha — ou ao menos, sem departamentos de ciência da computação topo de linha.

Então se você quiser fazer um Vale do Silício, você não precisa apenas de uma universidade, mas uma das poucas top do mundo. Ela tem que ser boa o suficiente para funcionar como um imã, atraindo as melhores pessoas de milhares de quilômetros de distância. E isto significa ter que concorrer com imãs já existentes como o MIT ou Stanford.

Isso soa difícil. Na verdade pode até ser fácil. Meus amigos professores universitários, quando estão decidindo onde eles gostariam de trabalhar, consideram uma coisa acima das demais: a qualidade do resto do corpo docente. O que atrai professores são bons colegas. Então se você conseguisse recrutar em massa um número significativo dos melhores jovens pesquisadores, você poderia criar uma universidade de primeira linha do nada de um dia pro outro. E você poderia fazer isso por surpreendentemente pouco. Se você pagasse bônus de contratação de três milhões de dólares por pessoa a 200 pessoas, você conseguiria juntar um corpo docente que se compararia com qualquer um dos melhores do mundo. E a partir deste ponto a reação em cadeia seria auto-sustentável. Então qualquer que seja o custo de se estabelecer uma universidade medíocre, por meio bilhão de dólares a mais seria possível criar uma de alto nível. [3]

Personalidade

No entanto, meramente criar uma nova universidade não seria suficiente para começar um Vale do Silício. A universidade é apenas a semente. Ela tem que ser plantada no solo certo, ou ela não germinará. Plante-a no lugar errado e você acaba criando uma Carnegie-Mellon.

Para fazer brotar startups, sua universidade tem que estar numa cidade que tenha outras atrações além da universidade. Tem que ser em um lugar onde os investidores queiram viver e onde os estudantes queiram ficar depois que se graduem.

Os dois grupos gostam mais ou menos das mesmas coisas, já que a maioria dos investidores em startups são, eles mesmos, nerds. Então o que os nerds procuram numa cidade? Seus gostos não são completamente diferentes dos de outras pessoas, como pode ser visto pelo fato de muitas das cidades das quais eles gostam nos EUA também serem grandes destinos de turistas: San Francisco, Boston, Seattle. Mas seus gostos também não podem ser bem os pop ou da maioria, pois eles não gostam de outros grandes destinos de turistas, como Nova York, Los Angeles e Las Vegas.

Muito tem sido escrito recentemente sobre a “classe criativa”. A tese parece ser a de que como a riqueza deriva cada vez mais de idéias, cidades prosperarão só se elas atraírem aqueles que as tem. Isto é certamente verdade; de fato esta foi a base da prosperidade de Amsterdã há 400 anos atrás.

Muitos dos gostos dos nerds são compartilhados com essa “classe criativa” em geral. Por exemplo, eles gostam de antigas vizinhanças bem preservadas ao invés de subúrbios que parecem que foram cortados com cortador de biscoito [todos com o mesmo formatinho] e de lojas e restaurantes com proprietários locais ao invés de mega cadeias. Assim como o resto da classe criativa, eles querem viver em um local com personalidade.

O que exatamente é essa personalidade? Eu acredito que é o sentimento de que cada construção é fruto do trabalho de um grupo diferente de pessoas. Uma cidade com personalidade é uma que não parece produzida em massa [, cheia de prédios iguais]. Então se você quer fazer um hub de startups — ou qualquer cidade para atrair a “classe criativa” — você provavelmente terá que banir grandes projetos de desenvolvimento. Quando uma grande área foi construída por uma única organização, você sempre percebe. [4]

A maioria das cidades com personalidade são antigas, mas elas não têm que ser. Velhas cidades têm duas vantagens: elas são mais densas, pois elas foram planejadas antes da existência dos carros, e elas eram mais variadas, pois elas foram construídas um prédio de cada vez. Você poderia ter os dois hoje em dia. Basta ter código de contruções que garantam a densidade e banir projetos de construção em larga escala.

Um corolário é que você tem que manter de fora o maior construtor de todos: o governo. Um governo que pergunta “Como nós podemos construir um Vale do Silício?” provavelmente já garantiu que o projeto falhará pelo modo como fraseou a pergunta. Você não constrói um Vale do Silício; você deixa um crescer.

Nerds

Se você quer atrair nerds, você precisa de mais que uma cidade com personalidade. Você precisa de uma cidade com a personalidade certa. Nerds são um subconjunto distinto da classe criativa, com gostos diferentes do resto. Você pode ver isso claramente em Nova York, a qual atrai muitas pessoas criativas, mas poucos nerds. [5]

O que os nerds gostam é o tipo de cidade onde as pessoas andam por aí “sorrindo”. Isto exclui Los Angeles, onde ninguém anda de jeito nenhum; e também Nova York, onde as pessoas andam, mas não sorrindo. Quando eu estava fazendo pós, uma amiga veio de Nova York me visitar. No metrô, voltando do aeroporto, ela perguntou: “Por que todo mundo está sorrindo?” Eu olhei e eles não estavam sorrindo. Eles apenas pareciam que estavam sorrindo quando comparados com as expressões facias as quais ela estava acostumada.

Se você morou em Nova York [ou São Paulo], você sabe de onde essas expressões faciais vêm. É o tipo de lugar onde sua mente pode estar empolgada/excitada mas seu corpo sabe que está “sofrendo”. As pessoas não gostam tanto de viver lá mas aguentam isso por causa da empolgação. E se você gosta de certos tipos de animação/empolgação, Nova York é incomparável. [Novamente, assim como São Paulo no Brasil]. É um hub de glamour, um imã para todos os isótopos de meia vida mais curta de estilo e fama.

Nerds não estão preocupados com glamour, então para eles o apelo de Nova York é um mistério. As pessoas que gostam de Nova York vão pagar uma fortuna por um apartamento pequeno, escuro e barulhento só para viver numa cidade onde as pessoas cool são mesmo cool. Um nerd olha uma proposta dessas e só vê: pague uma fortuna por um apartamento pequeno, escuro e barulhento.

Nerds pagarão um premium para viver em uma cidade onde as pessoas espertas/inteligentes são realmente espertas/inteligentes, mas você não tem que pagar tanto por isso. É uma questão de oferta e demanda: glamour é popular, então você tem que pagar muito por ele.

A maioria dos nerds gostam de prazeres mais quietos. Eles gostam de cafés ao invés de clubs; lojas de livros usados ao invés de lojas de roupas da moda; caminhadas/trilhas ao invés de dançar; sol de verdade ao invés de altos prédios de escritórios. A idéia de paraíso de um nerd é Berkeley ou Boulder. [Ou Curitiba. :)]

Jovens

São os nerds jovens que começam startups, então é para eles especificamente que a cidade tem que ser atrativa. Os hubs de startups nos EUA são todos cidades com um sentimento jovem. Isso não quer dizer que elas têm que ser novas. Cambridge tem o mais velho projeto de cidade dos EUA, mas parece jovem porque é cheia de estudantes.

O que você não pode ter, se você quer criar um Vale do Silício, é uma grande população existente de pessoas monótonas e desinteressadas. Seria uma perda de tempo tentar reverter a sorte de uma cidade industrial em declínio como Detroit ou Philadelphia ao tentar encorajar empresas startups. Estes lugares têm muito momento na direção errada. É melhor começar do zero com uma cidade pequena. Ou, melhor ainda, se existir uma cidade para onde as pessoas jovens vão em bandos, por essa.

A “Bay Area” [ou “Área da Baía” em português, região no norte da Califórnia que rodeia as baías de San Franciso e San Pablo e em cuja parte sul se encontra o Vale do Silício] foi um imã para os jovens e otimistas por décadas antes de ser associada a tecnologia. Era um lugar para o qual as pessoas iam a procura de algo novo. E assim se tornou sinônimo da “doidice” californiana. Ainda há muito disso lá. Se você quisesse começar uma nova onda/moda — uma nova maneira de focalizar a “energia” de uma pessoa, por exemplo, ou uma nova categoria de coisas para não se comer — a “Bay Area” seria o lugar para fazê-lo. Mas um lugar que tolera esquisitices na procura pelo novo é exatamente o que você quer em um hub de startups, pois economicamente é onde as startups “são”. A maioria das boas idéias de startups parecem meio malucas; se elas fossem obviamente boas idéias, alguém já as teria tido e feito.

(Quantas pessoas vão querer ter computadores em suas casas? O que? Outro engenho de busca?)

Esta é a conexão entre tecnologia e liberalismo [o conceito estadunidense, não o liberalismo do resto do mundo]. Sem exceção as cidades high-tech dos EUA são também as mais liberais [de novo, o conceito dos EUA de liberal]. Mas não é por que os “liberais” sejam mais espertos que é assim. É porque essas cidades toleram idéias diferentes/estranhas e pessoas espertas/inteligentes por definição têm idéias diferentes/estranhas.

Inversamente, uma cidade que é elogiada por ser “sólida” ou por representar “valores tradicionais” pode ser uma bom lugar para viver, mas nunca será um sucesso como hub de startups. A eleição presidencial de 2004, embora um desastre em outros sentidos, convenientemente nos supriu com um mapa condado-a-condado de tais lugares. [6]

Para atrair os jovens, uma cidade tem que ter um centro intacto. Na maioria das cidades dos EUA o centro foi abandonado, e o crescimento, se algum, acontece nos subúrbios. A maioria das cidades nos EUA foi virada de dentro pra fora. Mas isso não aconteceu com nenhum dos hubs de empresas startups: não aconteceu com San Francisco, com Boston, nem com Seattle. Elas todas têm centros intactos. [7] Meu “chute” é que nenhuma cidade com um centro morto pode ser transformada em hub de startups. Pessoas jovens não querem viver em subúrbios.

Dentro dos EUA, as duas cidades que eu [Paul] acho que poderiam mais facilmente ser transformadas em novos Vales do Silício são Boulder e Portland. Ambas têm o tipo de efervescência que atrai os jovens. Elas estão apenas a uma grande universidade de se tornarem um Vale do Silício, se elas quisessem fazê-lo.

Tempo

Uma boa universidade perto de uma cidade atrativa. Isso é tudo que é necessário? Isso foi todo o necessário para fazer o Vale do Silício original. O Vale do Silício tem suas origens em William Shockley, um dos inventores do transistor. Ele realizou a pesquisa que lhe rendeu o Prêmio Nobel nos Bell Labs, mas quando ele começou sua própria empresa em 1956, ele se mudou para Palo Alto para fazê-lo. Naquela época isto era uma coisa estranha de se fazer. Por que ele fez isso? porque ele tinha crescido lá e se lembrava do quão legal lá era. Agora Palo Alto é subúrbio, mas na época era uma charmosa cidade universitária — uma charmosa cidade universitária com um clima perfeito e San Francisco a apenas uma hora de distância.

As empresas que agora dominam o Vale do Silício são todas descendentes, de diversas maneiras, da Shockley Semiconductor. Shockley era uma pessoa difícil, e em 1957 seus funcionários top — “os oito traidores” — saíram para fundar uma nova empresa, a Fairchild Semiconductor. Entre eles estavam Gordon Moore [da lei de Moore] e Robert Noyce, que fundaram depois a Intel, e Eugene Kleiner, que fundou a firma de VC Kleiner Perkins [uma das firmas de VC mais famosas do Vale do Silício ; além disso, o Perkins do nome da firma vem do Tom Perkins, um dos líderes da divisão de computadores da HP]. Quarenta e dois anos depois, a Kleiner Perkins [KPCB] fundeou o Google, e o sócio responsável pelo acordo foi John Doerr, que foi pro Vale do Silício em 1974 para trabalhar na Intel. [A KPCB também foi uma das primeiras a investir na Amazon, AOL, Compaq, EA, Lotus, Macromedia, Netscape e Sun, entre outras.]

Assim, embora muitas das mais novas empresas no Vale do Silício não produzam nada feito de silício, sempre existem múltiplos links de volta à Shockley. Há uma lição aqui: startups engendram startups. Pessoas que trabalham para startups começam suas próprias startups. Pessoas que ficam ricas com startups investem em novas startups. Eu [Paul] suspeito que este tipo de crescimento orgânico é a única maneira de produzir um hub de startups, pois é a única maneira de desenvolver o expertise de que se precisa.

Isto tem duas importantes implicações. A primeira é que você precisa de tempo para “crescer” um Vale do Silício. A universidade você poderia criar em alguns poucos anos, mas a comunidade startup ao redor teria que crescer organicamente. O tempo do ciclo é limitado pelo tempo que leva para uma empresa ter sucesso, o que provavelmente leva cerca de cinco anos.

A outra implicação da hipótese do crescimento orgânico é que não se pode ser meio-que-um-hub de startups. Ou se tem uma reação em cadeia auto-sustentável, ou não. Observações também confirmam isso: as cidades ou têm uma “cena” startup, ou não têm. Não há meio termo. Chicago tem a terceira maior área metropolitana dos EUA. Como fonte de startups ela é insignificante comparada a Seattle, a número 15.

A boa notícia é que a semente inicial pode ser bem pequena. A Shockley Semiconductor, embora não tão de sucesso por si só, foi grande o suficiente. Ela juntou uma massa crítica de experts em uma importante nova tecnologia em um lugar de que eles gostavam o suficiente para ficar.

Competição

Claro, um possível Vale do Silício enfrenta um obstáculo que o original não tinha: ele tem que competir com o Vale do Silício. Isso pode ser feito? Provavelmente.

Uma das maiores vantagens do Vale do Silício são suas firmas de venture capital (capital de risco). Isso não era um fator na época da Shockley, já que fundos de VC não existiam. Na verdade, a Shockley Semiconductor e a Fairchild Semiconductor não eram mesmo startups como as conhecemos. Elas eram subsidiárias — da Beckman Instruments e da Fairchild Camera and Instrument, respectivamente. Essas empresas aparentemente estavam dispostas a estabelecer subsidiárias onde quer que os experts quisessem viver.

Investidores de risco, no entanto, preferem fundear startups a no máximo uma hora de distância de carro. De um lado, é mais provável que eles notem startups por perto. Mas quando eles notam startups em outras cidades, eles preferem que elas se mudem. Eles não querem ter que viajar para participar de reuniões da mesa diretora, e de qualquer modo as chances de sucesso são maiores em um hub de startups.

O efeito centralizador das firmas de VC é duplo: elas fazem com que startups se formem ao redor delas, e estas atraem mais startups através de aquisições. E embora o primeiro efeito esteja enfraquecendo pois agora é muito barato de se começar certas startups, o segundo parece tão forte quanto nunca. Três das mais admiradas empresas “Web 2.0” começaram fora dos hubs de startups usuais, mas duas delas já foram fisgadas através de aquisições.

Tais forças centralizadoras tornam mais difícil começar novos Vales do Silício. Mas de maneira nenhuma impossível. No fim das contas, o poder está com os fundadores. Uma startup com as melhores pessoas vai bater uma com fundos de VCs famosos, e uma startup que seja suficientemente de sucesso nunca precisaria se mudar. Sendo assim, uma cidade que pudesse exercer uma força suficiente sobre as pessoas certas poderia resistir e talvez até suplantar o Vale do Silício.

Com todo o seu poder, o Vale do Silício tem uma imensa fraqueza: o paraíso que Shockley encontrou em 1956 é agora um gigante estacionamento. San Francisco e Berkeley são ótimas, mas elas estão a sessenta e cinco quilômetros de distância. O Vale do Silício em si é uma expansão suburbana esmagadora-de-almas. Tem um clima fabuloso, o que o torna muito melhor que a expansão esmagadora-de-almas da maioria das cidades nos EUA. Mas uma competidora que consiga evitar essa expansão/esse espalhamento teria uma verdadeira vantagem. Tudo que uma cidade precisa é ser o tipo de lugar que os próximos “oito traidores” vejam e digam “Eu quero ficar aqui” e isso seria o suficiente para começar a reação em cadeia.

Notas

[1] É interessante considerar quão pequeno este número pode ser. Eu [Paul] suspeito que quinhentas seria suficiente, mesmo que elas não pudessem trazer nenhum ativo consigo. Provavelmente apenas trinta, se eu pudesse escolhê-las, seriam suficientes para transformar Buffalo em um significativo hub de startups.

[2] Burocratas conseguem alocar fundos para pesquisa moderadamente bem, mas apenas porque (como um fundo de VC in-house) eles “terceirizam” a maior parte do trabalho de seleção. Um professor em uma famosa universidade que é reconhecido por seus pares vai receber fundos, praticamente independentemente da proposta. Isso não funcionaria para startups, cujos fundadores não são patrocinados por organizações e são freqüentemente desconhecidos.

[3] Você teria que fazer tudo de uma vez, ou ao menos um departamento inteiro de cada vez, pois a probabilidade das pessoas virem seria maior se elas soubessem que seus amigos fossem. E você provavelmente deveria começar do zero, ao invés de tentar atualizar uma universidade existente, ou muita energia seria gasta em fricção.

[4] Hipótese: Qualquer plano/projeto em que múltiplos prédios independentes são destruídos ou demolidos para “redesenvolvimento” como um projeto único uma perda líquida na personalidade da cidade, com exceção da conversão de prédios não previamente públicos, como armazéns [– caso de Vancouver no Canadá e um pouquinho de Recife].

[5] Umas poucas startups são iniciadas em Nova York, mas menos de um décimo da quantidade per capita em Boston e, em sua maioria, em campos menos nerds como finanças ou mídia.

[6] Alguns condados azuis são falsos positivos (refletindo o poder remanescente da máquina do partido Democrata), mas não existem falsos negativos. Você pode seguramente descartar todos os condados vermelhos.

[7] Alguns experts em “renovação urbana” tentaram destruir o de Boston nos anos 60, deixando a área ao redor da prefeitura um desolador abandono, mas a maioria das vizinhanças resistiu a eles.

[Paul Graham:]Agradecimentos a Chris Anderson, Trevor Blackwell, Marc Hedlund, Jessica Livingston, Robert Morris, Greg Mcadoo e Fred Wilson por lerem rascunhos deste ensaio [o original], e a Ed Dumbill por me convidar para dar a palestra.

(Como essa palestra foi longa e tinha uma parada natural, o texto será dividido em dois ensaios. O segundo será disponibilizado online em alguns dias.)

— tellarin
http://www.axia.com.br/tellarin

 

No comments yet


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *