Um Bom “Comportamento Ruim” – A palavra “Hacker”

November 26th, 2004

Category: Especial Paul Graham

Este texto é uma tradução autorizada do texto Good Bad Attitude (ou The Word “Hacker”) de autoria de Paul Graham, e foi executada para publicação no site SouNerd.com como mais uma parte de uma série.
Quem realmente se interessa por programação, por cultura nerd ou assuntos nerd em geral deveria ler os textos desse cara com certeza.


Original: Abril de 2004
Tradução: Novembro de 2004

Texto original: Good Bad Attitude (ou The Word “Hacker”), autoria de Paul Graham.
Tradução por Börje Karlsson (tellarin at sounerd dot com).
Eventuais comentários entre colchetes são adições pelo tradutor, não existindo na versão original.

Para a imprensa em geral, “hacker” significa alguém que invade sistemas de computadores. Já entre programadores, o termo significa um programador que se garante. Mas os dois significados estão de alguma maneira conectados. Para programadores, “hacker” denota maestreza no sentido mais absoluto da palavra: alguém que pode fazer o computador fazer o que ele quer– quer o computador queira fazê-lo ou não.

Para aumentar ainda mais a confusão, o substantivo “hack” em inglês tem dois significados. Ele pode tanto ser um elogio quanto um insulto. Se chama um hack quando você faz algo de uma maneira feia. Mas quando você faz algo tão esperto que de algum modo você deturpa o sistema, isto também é chamado de hack. A palavra é mais comumente usada no sentido de gambiarra do que no outro sentido, provavelmente porque soluções feias são bem mais comuns que soluções brilhantes.

Acredite ou não, os dois sentidos de “hack” também estão conectados. Soluções feias e imaginativas tem algo em comum: ambas quebram as regras. E existe um contínuo gradual entre quebrar as regras de maneira feia (usando fita adesiva para segurar algo na sua bicicleta) e quebrar as regras de uma maneira que seja brilhante e extremamente imaginativa (descartar o espaço Euclideano).

O ato de Hackear (Hacking) antecede os computadores. Quando ele estava trabalhando no Projeto Manhattan [projeto que resultou na bomba atômica], Richard Feynman [dentre outras coisas, ganhador do Prêmio Nobel de Física pelo seu trabalho com eletrodinâmica quântica] se divertia arrombando cofres contendo documentos secretos. Esta tradição continua hoje em dia. Quando nós estávamos na graduação, um hacker amigo meu que passou muito tempo por perto do MIT tinha seu próprio kit de abrir fechaduras (lock picking kit). (Ele agora dirige um hedge fund, um empreendimento relativamente co-relacionado.)

Alguma vezes é difícil explicar às autoridades porque alguém iria querer fazer tais coisas. Outro amigo meu uma vez entrou em problemas com o governo por invadir computadores [e um amigo do tradutor também :)]. Fazia pouco tempo que isso havia sido declarado como sendo um crime, e o FBI descobriu que seus métodos usuais de investigação não funcionavam. Investigação policial aparentemente começa com um motivo. Os motivos comuns são poucos: drogas, dinheiro, sexo, vingança. Curiosidade intelectual não era um dos motivos na lista do FBI. De fato, o próprio conceito em si lhes parecia alienígena.

Aqueles com “autoridade” tendem a se sentir perturbados pela atitude de desobediência (geral) dos hackers. Mas essa desobediência é resultado das qualidades que fazem deles bom programadores [ou administradores de sistemas, engenheiros, etc.]. Eles podem rir do presidente da empresa quando ele fala usando buzzwords genéricas, mas eles também riem quando alguém lhes diz que um certo problema não pode ser resolvido. Reprima um, e você acaba reprimindo o outro.

Esta atitude no entanto é algumas vezes afetação. Alguns programadores mais jovens notam as “excentricidades” dos hackers mais eminentes e decidem adotá-las de modo a parecerem mais espertos. Esta versão falsa da atitude não apenas chateia; a atitude “abusada” desses posers pode na verdade atrapalhar o processo de inovação.

Mas mesmo levando em conta suas excentricidades irritantes, a atitude de desobediência dos hackers resulta num lucro líquido. Eu gostaria que suas vantagens fossem melhor entendidas.

Por exemplo, eu suspeito que o pessoal em Hollywood fique simplesmente mistificado com a atitude dos hackers com relação a copyrights. Eles (copyrights) são um assunto recorrente de discussão acirrada na Slashdot [e em vários outros fórums]. Mas porque deveriam as pessoas que programam computadores ser tão preocupadas logo com copyrights dentre todas as coisas?

Parcialmente porque algumas empresas usam “mecanismos” para tentar prevenir cópias. Mostre a qualquer hacker uma fechadura/trava e o primeiro pensamento dele será de como abrí-la. Mas existe um razão mais profunda para que os hackers fiquem alarmados por medidas como copyrights e patentes. Eles vêem essas medidas cada vez mais agressivas para proteger a dita “propriedade intelectual” como uma ameaça a liberdade intelectual necessária para que eles realizem seu tabalho. E eles estão certos.

É mexendo nas entranhas da tecnologia atual que os hackers encontram idéias para a próxima geração. Não obrigado, podem dizem os donos da “propriedade intelectual”, não precisamos de nenhuma ajuda externa. Mas eles estão errados. A próxima geração de tecnologia em computação frequentemente –talvez bem mais frequentemente que não– tem sido desenvolvida por “pessoas de fora”.

Em 1977 não há dúvida de que havia algum grupo dentro da IBM que estava desenvolvendo o que eles esperavam que fosse a próxima geração de computadores para as negócios. Eles estavam completamente enganados. A próxima geração de computadores estava sendo desenvolvida em linhas totalmente diferentes por dois caras de cabelo comprido chamados Steve em uma garagem em Los Altos [Califórnia, EUA]. Mais ou menos ao mesmo tempo, os no poder estavam cooperando para desenvolver o sistema operacional oficial da próxima geração, o Multics. Mas dois caras que acharam o Multics excessivamente complexo foram lá e escreverm o SO deles mesmos. E eles deram ao SO um nome que era uma referência tirando onda com o Multics: Unix.

As últimas leis de propriedade intelectual [especialmente nos EUA] impõem restrições sem precedentes no tipo de cutucadas e mexidas que levam à criação de novas idéias. No passado, um competidor podia usar patentes para evitar que você vendesse uma cópia de algo que ele tenha feito, mas eles não podiam impedí-lo de desmontar o “produto” e ver como ele funcionava. As últimas leis fazem desse tipo de coisa um crime [vide o DMCA]. Como poderemos desenvolver novas tecnologias se nós não podemos estudar a tecnologia atual para descobrir como melhorá-la?

Ironicamente, os hackers atraíram esse tipo de coisa para eles mesmos. Computadores são responsáveis pelo problema. Os sistemas de controle dentro de máquinas era antigamente físico: engrenagens e alavancas e câmaras. Cada vez mais, o cérebro (e consequentemente o valor) de um produto está no software. E por software eu quero dizer software num sentido geral: i.e. dados. Uma música num LP está fisicamente marcada no vinil. Uma música num disco rígido de um iPod [da Apple] está meramente guardada/armazenada nele.

Dados são por definição fáceis de copiar. E a Internet faz com que as cópias sejam de fácil distribuição. Então não é de se admirar que as companhias estejam com medo. Mas, como tão frequentemente ocorre, esse medo tem nublado o julgamento delas. O governo tem respondido com leis draconianas para proteger a “propriedade intelectual”. Eles provavelmente tem boas intenções. Mas eles não percebem que tais leis vão causar mais mal que bem.

Por que os programadores se opõem tão violentamente a tais leis? Se eu fosse um legislador, eu estaria interessado nesse mistério –pela mesma razão que, se eu fosse um fazendeiro e de repente ouvisse um bocado de cacarejos e barulho vindo do meu galinheiro numa noite, eu iria querer ir lá e investigar. Hackers não são estúpidos, e unanimidade é muito rara nesse mundo. Então se eles estão todos fazendo barulho, pode ser que algo de errado esteja acontecendo.

Poderia ocorrer de tais leis, mesmo que criadas com a intenção de proteger, acabem na verdade causando mal? Pense sobre isso. Tem algo bem “americano/estadunidense” no caso do Feynman arrombando cofres durante o Projeto Manhattan. É bem difícil imaginar as autoridades tendo senso de humor sobre o assunto na Alemanha da época. Talvez não seja coincidência.

Hackers são “ingovernáveis”. Essa é a essência do hackear. E isso é também [ou era] a essência dos estadunidenses. Não é por acaso que o Silicon Valley é nos EUA, e não na França, ou Alemanha, ou Inglaterra, ou Japão. Nesses países, as pessoas colorem dentro das linhas [ou pelo menos tem mais tendência a fazê-lo. O Brasil seria um exemplo de país onde a "criatividade" (nesse sentido) também é mais pronunciada].

Eu vivi por um tempo em Florença. Mas depois de estar vivendo lá por alguns meses eu percebi que o que eu estava inconscientemente esperando encontrar por lá estava na verdade no lugar de onde eu havia saído. A razão pelo qual Florença se tornou famosa é que em 1450, ela era Nova York. Em 1450 a cidade estava cheia com o tipo de pessoas turbulentas e ambiciosas (no bom sentido) que você encontra nos EUA [pelo menos há um tempo atrás]. (Então eu voltei pros EUA.)

É bem vantajoso pros EUA que essa seja uma atmosfera propícia para o tipo certo de “não governança” –que este é o lugar não só para os espertos, mas para os “desenrolados” [Schlaubergern em alemão, do original em inglês smart-alecks, que normalmente em inglês tem uma conotação não muito boa mas seria algo tipo espertinho e engraçadinho no sentido "bacana" dos termos, as vezes metido a besta; mas aqui quer dizer o cara esperto-engraçado, que é inteligente, tem boas tiradas, desenrolado]. Qualquer hacker é invariavelmente um “desenrolado”. Se os EUA tivessem um feriado nacional, ele devia ser o 1o de Abril. Diz muito sobre a cultura dos EUA o fato de usarem a mesma palavra pra uma solução brihante e pra uma solução nojenta. Quando nós preparamos uma, nunca se pode ter 100% de certeza que qual será no final. Mas desde que a solução apresente o grau certo de “erradez”, esse é um sinal promissor. É um tanto quanto estranho que as pessoas pensem em programação como sempre precisa e metódica. Computadores são precisos e metódicos. Hacking é algo que você faz com um sorriso alegre no rosto.

No nosso mundo [(computação)] algumas das soluções mais características não estão muito longe de tiradas de onda (practical jokes). A IBM sem dúvida ficou surpresa pelas consequências do acordo de licenciamento do DOS, assim como o “adversário” hipotético deveria ficar quando Michael Rabin [cientista da computação que recebeu (junto com Dana Scott) o Turing Award (prêmio super conceituado da computação) pela idéia de máquinas não determinísticas, chave pra teoria de complexidade computacional] resolve um problema redefinindo-o como um que seja mais simples de resolver.

“Desenrolados/espertinhos” tem que desenvolver um aguçado senso de até onde eles podem se safar. E ultimamente os hackers tem sentido uma mudança de atmosfera. Ultimamente a habilidade de hackear (a “hackeza”) tem sido encarada com uma certa cara feia.

Para os hackers, a recente contração das liberdades civis parece especialmente sinistra. Isso também deve impressionar os de fora do meio. Por que nós deveríamos nos preocupar mais com as liberdades civis? Por que programadores deveriam se preocupar mais que dentistas ou vendedores ou salesmen or paisagistas?

Deixe-me exibir o caso em termos que um funcionário do governo fosse apreciar. Liberdades civis não são somente um ornamento/enfeite, ou uma estranha tradição dos EUA. Liberdades civis tornam os países ricos. Se você fizer um gráfico do PIB per capita vs. liberdades civis, você iria notar um tendência clara e bem definida. Poderiam as liberdades civis realmente ser a causa, ao invés de somente um efeito? Eu acho que sim. Acredito que uma sociedade na qual as pessoas podem fazer e dizer o que querem vai também tender a ser uma onde as soluções mais eficientes vencem, e não aquelas bancadas pelas pessoas mais influentes/poderosas. Países autoritários se tornam corruptos; países corruptos se tornam pobres; e países pobres se tornam fracos. Me parece que existe uma curva de Laffer para o poder do governo, assim como existe para receita de impostos. No mínimo, isso parece tão provável que seria estupidez tentar um experimento para provar a idéia errada. Ao contrário de impostos altos, você não pode repelir facilmente o totalitarismo se ele se provar um engano.

É por isso que os hackers se preocupam. O governo estar espionando as pessoas não faz com que os programadores literalmente escrevam código pior. Isso só nos leva com o tempo a um mundo onde as más idéias vencem. E por que essa é uma questão tão importante pros hackers, eles são especialmente sensíveis aos acontecimentos. Eles podem perceber o totalitarismo se aproximando a uma grande distância, assim como os animais podem pressentir uma tempestade que se aproxima.

Seria irônico se, como os hackers temem, as medidas recentes intencionadas para proteger a segurança nacional [dos EUA] e a propriedade intelectual acabassem se mostrando um míssil apontado diretamente pro que fez os EUA ter sucesso. Mas não seria a primeira vez que medidas tomadas numa atmosfera de pânico tiveram o efeito contrário ao desejado.

Existe uma coisa chamada “jeito estadunidense” (American-ness) [nesse sentido apresentado no texto, realmente acho que há]. Não há nada como morar fora para lhe mostrar isso. E se você quer saber se algo vai nutrir ou esmagar essa qualidade, seria difícil encontrar um melhor grupo de estudo/observação/controle que os hackers, pois eles estão mais perto que qualquer grupo que conheço de personificar o conceito. Mais perto, provavelmente, que os homens disputando e controlando nosso governo, que por todas suas falas sobre patriotismo me lembram mais de Richelieu ou Mazarin do que de Thomas Jefferson ou George Washington.

Quando se lê sobre o que os “pais-fundadores” [founding fathers, os "criadores" dos EUA] tinham a dizer sobre eles mesmos, eles soam bastante como hackers. “O espírito da resistência ao governo,” escreveu Jefferson, “é tão valioso em certas ocasiões, que eu desejaria que ele sempre se mantivesse vivo.”

Imagine um presidente dos EUA dizendo isso hoje em dia. Assim como os comentários de uma velha avó falante, os ditos dos pais-fundadores dos EUA constrangeram gerações de seus sucessores menos confiantes. Eles nos lembram de onde viemos. Eles nos lembram que são as pessoas que “quebram” as regras que são a fonte da riqueza e poder que os EUA conseguiram.

Aqueles em posição de impôr regras naturalmente querem que elas sejam obedecidas. Mas seja cuidadoso no que você deseja/pede. Você pode acabar conseguindo.

[Paul Graham:]Agradecimentos a Ken Anderson, Trevor Blackwell, Daniel Giffin, Sarah Harlin, Shiro Kawai, Jessica Livingston, Matz, Jackie McDonough, Robert Morris, Eric Raymond, Guido van Rossum, David Weinberger e Steven Wolfram por lerem rascunhos deste ensaio [o original].

Este texto foi anteriormente intitulado *Um Bom “Comportamento Ruim”*, mas eu [Paul] voltei ao título original quando percebi que eu ficava tendo problemas pra lembrar desse título bonitinho novo.

— tellarin

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